Lobito esqueceu o seu Arquitecto?

A história de Francisco Castro Rodrigues, o homem que ajudou a desenhar a cidade moderna

Durante mais de três décadas, Francisco Castro Rodrigues participou na transformação do Lobito, desenhando edifícios, equipamentos públicos, habitação e planos urbanos. Hoje, o seu nome merece voltar ao centro da memória arquitectónica da cidade.

Francisco Castro Rodrigues, arquitecto do Lobito
Francisco Castro Rodrigues, em 2014. Fotografia: Pedro da Silveira / Wikimedia Commons.

Há cidades que são reconhecíveis pelos seus monumentos. Outras reconhecem-se por uma linguagem: pela maneira como as ruas se relacionam com os edifícios, como a sombra é usada para proteger do calor, como os espaços públicos acolhem as pessoas e como a arquitectura responde ao clima. O Lobito é, em grande medida, uma dessas cidades.

No século XX, poucos arquitectos tiveram uma relação tão prolongada e profunda com uma cidade angolana como Francisco Castro Rodrigues (1920–2015). Nascido em Lisboa, chegou a Angola no início da década de 1950 e desenvolveu no Lobito a parte mais significativa da sua obra. A sua actividade profissional na cidade estendeu-se, de acordo com diferentes fontes, de 1953 até 1987/1988, atravessando o período colonial e os primeiros anos da Angola independente.

O reconhecimento institucional chegou em 2010, quando lhe foi atribuído o
Prémio AICA/Ministério da Cultura na área da Arquitectura. O júri destacou precisamente a relevância cultural da sua obra e o facto de grande parte dela estar concentrada no Lobito, cidade à qual imprimiu um forte carácter urbano a partir dos anos 1950.

“Temos uma realidade objectiva local que temos que melhorar e daí é que vamos partir para o futuro.”

— Francisco Castro Rodrigues, citado em estudos e testemunhos sobre a sua obra no Lobito.

Um arquitecto que pensava a cidade como um todo

A importância de Castro Rodrigues não está apenas no número de edifícios que projectou. Está sobretudo na escala do seu pensamento. Ele trabalhou simultaneamente em arquitectura, urbanismo, equipamentos públicos, habitação e infra-estruturas.

Esta visão ajuda a explicar por que razão a sua influência no Lobito ultrapassa a simples autoria de edifícios. O seu trabalho participou na definição de bairros, equipamentos colectivos e formas de crescimento urbano. O Plano Director do Lobito, aprovado em 1975, é uma das expressões mais importantes dessa dimensão urbanística.

A investigação sobre a arquitectura moderna em Angola também mostra que Castro Rodrigues não aplicou simplesmente modelos europeus à realidade africana. A sua arquitectura procurou adaptar técnicas modernas às condições locais, recorrendo a soluções como grelhagens, palas, sombras, ventilação cruzada e espaços intermédios. O resultado foi uma arquitectura moderna com forte dimensão tropical.

1. Casa Sol: o início de uma linguagem

Entre as primeiras obras associadas a Castro Rodrigues no Lobito está a Casa Sol,
cuja cronologia aparece em algumas fontes como 1952–1955 e noutras como 1953. Mais importante do que a diferença de datas é perceber o que a obra anuncia: uma arquitectura moderna preocupada com a relação entre habitação, clima e expressão artística.

A Casa Sol também revela uma característica que acompanharia a carreira do arquitecto: a colaboração com artistas plásticos. O edifício recebeu painéis de azulejo de Manuel Ribeiro de Pavia, demonstrando uma concepção da arquitectura como obra integrada, e não apenas como construção funcional.

2. Edifício Universal: habitar entre sombra e ventilação

Edifício Universal no Lobito, associado a Francisco Castro Rodrigues
Edifício Universal, Lobito. A composição utiliza varandas, grelhagens, recuos e elementos de
protecção solar para criar uma arquitectura adaptada ao clima tropical.

O edifício multifamiliar Universal tornou-se outro exemplo marcante da sua
investigação arquitectónica. A fachada é composta por uma sucessão de grelhagens, palas, terraços e recuos que produzem sombra e permitem uma relação mais permeável entre interior e exterior.

Não se trata apenas de estética. Num clima quente, a sombra e a ventilação são parte essencial do funcionamento do edifício. Castro Rodrigues explorou precisamente essa relação entre forma, clima e conforto.

3. Cine-Esplanada Flamingo: a arquitectura como espectáculo

Cine-Esplanada Flamingo, Lobito
Cine-Esplanada Flamingo, Lobito. Fotografia de Walter Fernandes, 2013, no âmbito de um
levantamento fotográfico sobre os cinemas modernistas de Angola.

Inaugurado em 1963, o Cine-Esplanada Flamingo é talvez o edifício que melhor
sintetiza a ambição cosmopolita do Lobito moderno.

A estrutura de betão de grande balanço, associada a uma esplanada aberta, produzia uma arquitectura simultaneamente monumental e leve. Segundo o levantamento do Heritage of Portuguese Influence / HPIP, a cobertura apresentava um vão de cerca de 16 metros e o recinto tinha capacidade para aproximadamente 1.200 pessoas. Hoje, o Flamingo tornou-se também um símbolo da fragilidade do património moderno angolano. A perda de partes importantes da estrutura e o seu estado de conservação lembram que a arquitectura moderna do Lobito não pode ser preservada apenas através de fotografias e livros: precisa de políticas concretas de conservação.

4. Liceu do Lobito: construir para o clima

Liceu do Lobito, projecto de Francisco Castro Rodrigues
Liceu do Lobito. A estrutura elevada e os elementos de sombreamento da fachada evidenciam a
preocupação com ventilação e protecção solar.

O Liceu do Lobito, associado a Castro Rodrigues e datado de meados dos anos 1960, é frequentemente apontado como uma das suas obras mais radicais.

A solução arquitectónica combina estrutura de betão, espaços exteriores protegidos e elementos vazados que filtram a luz. O edifício demonstra como a arquitectura moderna podia ser reinterpretada para responder às condições tropicais sem abandonar a linguagem construtiva contemporânea.

Mais do que uma escola, tornou-se uma experiência arquitectónica: uma demonstração de que funcionalidade, clima, iluminação natural e expressão arquitectónica podiam ser pensados em conjunto.

5. Mercado, Aerogare e espaço público

A intervenção de Castro Rodrigues no Lobito não se limitou à habitação e às grandes obras culturais.
O Mercado Municipal e a Aerogare do Lobito, associados ao período 1963–1964, fazem parte de uma estratégia mais ampla de construção de uma cidade equipada.

Estes edifícios mostram outra dimensão do seu trabalho: a arquitectura quotidiana. Mercados, escolas, terminais, habitação e espaços de encontro são precisamente os equipamentos que dão à cidade a sua vida diária.

6. Alto do Liro: quando o urbanismo encontra a população

Talvez nenhum projecto revele tão claramente a dimensão social do pensamento de Castro Rodrigues como a Operação Alto do Liro.

O programa previa cerca de 7.500 fogos num bairro municipal de autoconstrução.
A estratégia procurava combinar intervenção pública, infra-estruturas e participação dos próprios moradores na construção das habitações.

Estudos históricos descrevem o projecto como uma experiência particularmente inovadora para o contexto angolano, chegando a compará-lo, pela sua lógica de participação e autoconstrução, com experiências que seriam posteriormente desenvolvidas em Portugal no âmbito do SAAL.

Esta dimensão é importante porque permite compreender Castro Rodrigues não apenas como um autor de edifícios, mas como alguém interessado em como as pessoas constroem, ocupam e transformam a cidade.

7. Um arquitecto entre dois períodos históricos

A obra de Francisco Castro Rodrigues deve ser lida dentro de uma história complexa. Parte significativa dos seus projectos foi realizada durante o período colonial português, e isso não pode ser apagado da leitura do seu legado.

Ao mesmo tempo, a sua trajectória pessoal e profissional não terminou em 1975. Castro Rodrigues permaneceu em Angola depois da independência e colaborou na organização do ensino da arquitectura no país. Trabalhou também na Direcção Nacional de Edificações e no Gabinete Regional de Urbanização de Benguela.

Essa continuidade é particularmente relevante: a sua relação com Angola não foi apenas a de um arquitecto que chegou, construiu e partiu. Ele permaneceu ligado à cidade e ao país durante décadas, produzindo também textos, estudos e reflexões sobre urbanismo, habitação e desenvolvimento.

8. O Lobito que ficou

Em 2010, o júri do Prémio AICA reconheceu que a maior parte da obra construída de Castro Rodrigues estava no Lobito e que foi nessa cidade que ele imprimiu um forte carácter urbano à paisagem. É uma formulação particularmente importante porque desloca o foco do arquitecto individual para a cidade como obra colectiva.

O Lobito que hoje atravessamos ainda guarda essa linguagem: edifícios elevados, sombras profundas, grelhagens, varandas, espaços públicos, estruturas de betão e uma relação constante entre o interior e o exterior.

Algumas obras estão degradadas. Outras foram alteradas. Algumas perderam parte da sua integridade arquitectónica. Mas continuam a funcionar como documentos físicos de uma época em que a cidade foi pensada como um grande laboratório de arquitectura moderna tropical.

A pergunta que fica

Se uma cidade continua a viver dentro dos edifícios, bairros e planos desenhados por um arquitecto, até que ponto pode esquecer o nome de quem ajudou a construí-la?

Não é apenas memória. É património.

Recuperar a memória de Francisco Castro Rodrigues não significa transformar a história colonial numa narrativa de nostalgia. Significa reconhecer que a cidade possui uma história arquitectónica própria e que essa história faz parte do  património de Angola.

Significa também discutir o futuro. Que edifícios devem ser protegidos? Quais podem ser recuperados? Como devem ser adaptados às necessidades actuais sem destruir a sua identidade? E como podem as novas gerações de arquitectos e estudantes conhecer as experiências urbanas que já foram realizadas no próprio Lobito?

Talvez o maior legado de Castro Rodrigues não esteja num edifício específico. Talvez esteja na ideia de que uma cidade pode ser moderna sem deixar de ser local; que o clima, os materiais, a população e a cultura não são obstáculos à arquitectura, mas parte dela.

O Lobito não precisa apenas de recordar Francisco Castro Rodrigues.
Precisa de voltar a estudar o que ele deixou.

Porque uma cidade que esquece a história da sua arquitectura corre o risco de perder também a compreensão de si própria.


Fontes e leituras recomendadas

  1. AICA Portugal — Prémio AICA/Ministério da Cultura 2010,
    atribuído a Francisco Castro Rodrigues na área da Arquitectura:
    aica.pt
  2. BUALA — Cristina Salvador, “Francisco Castro Rodrigues, o arquitecto do Lobito”,
    24 de Março de 2011:
    buala.org
  3. DOCOMOMO Portugal — “Francisco Castro Rodrigues (1920–2015)”:
    docomomo.pt
  4. Museu do Neo-Realismo — biografia e espólio de Francisco Castro Rodrigues:
    museudoneorealismo.pt
  5. HPIP — Heritage of Portuguese Influence / Fundação Calouste Gulbenkian
    ficha do Cine-Esplanada Flamingo:
    hpip.org
  6. Ana Magalhães e Inês Gonçalves, Moderno Tropical: Arquitectura em Angola e Moçambique, 1948–1975,
    Tinta-da-China, 2009.
  7. Eduarda Dionísio, Um Cesto de Cerejas — Conversas, memórias, uma vida,
    Casa da Achada / Centro Mário Dionísio, 2009.
  8. José Manuel Fernandes, Geração Africana: Arquitectura e Cidades em Angola e Moçambique, 1925–1975,
    Livros Horizonte, 2002.

Preparando as cidades para o pior cenário: os desafios urgentes das mudanças climáticas

O recente agravamento das mudanças climáticas e os decorrentes desastres naturais que cada dia mais frequentemente assolam o nosso planeta, juntamente com a contínua exploração predatória dos recursos naturais e os poucos esforços que têm sido feitos para diminuir a emissão de gases do efeito estufa, levantam uma preocupação crescente sobre o futuro da vida nas cidades. Para além de todos os esforços necessários para minimizarmos o agravamento das mudanças climáticas em curso, se faz iminente que comecemos a pensar e desenvolver estratégias que nos permitam preparar nossas cidades para os inevitáveis desafios que estão chegando, como aumento dos níveis das marés e das inundações por um lado, e a seca e o calor extremo de outro. Pensando nisso, o artigo a seguir nos convida a pensar e refletir como poderíamos construir cidades mais resilientes, permitindo que as mesmas se adaptem e se transformem em resposta aos desafios do futuro.

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Os melhores projectos construídos por estudantes: Envie o seu!

O ArchDaily está convidando seus leitores recém-formados a enviarem seus projetos de conclusão de curso para o nossa seleção dos melhores pavilhões, instalações e estruturas experimentais construídos por estudantes de todo o mundo.

Mais uma vez, unimos forças com o ArchDaily en EspañolArchDaily China e ArchDaily, buscando reunir o melhor que está sendo produzido por estudantes do mundo todo. Saiba como participar, a seguir. Continue reading Os melhores projectos construídos por estudantes: Envie o seu!

Souto de Moura ao DN.

Apraz-me partilhar a entrevista concedida pelo grande arquitecto Souto de Moura, ao jornal “Dario de Noticias”.

Ainda lhe dá prazer fazer arquitectura?

Cada vez menos. Não é a arquitectura, que nos últimos tempos tenho feito pouca. O que me dá cada vez menos prazer é fazer a arquitectura que me pedem e que se faz hoje. Fui para arquitectura por influência do meu irmão, não fazia ideia do que era. Na Escola de Belas Artes tive um primeiro e um segundo ano gloriosos, no terceiro ano a escola fechou e fui trabalhar. Continue reading Souto de Moura ao DN.

Publicações da Bauhaus para download gratuito

Biblioteca Kandinsky disponibiliza 9 publicações da Bauhaus para download gratuito.

Bauhaus, talvez a mais influente e icónica escola de arquitectura, design industrial e design gráfico da história, fundada por Walter Gropius em 1919 em Weimar, Alemanha, tem nove de suas publicações disponibilizadas gratuitamente pela Biblioteca Kandinsky, localizada no Centro Pompidou, em Paris.

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Estúdio catalão RCR Arquitectes vence Pritzker 2017

O estúdio catalão RCR Arquitectes recebeu, este ano, o mais prestigiante galardão de arquitectura do mundo. O RCR dá privilégio à paisagem e procura ligar sempre o interior com o exterior.

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Rafael Aranda, Carme Pigem e o seu marido Ramon Vilalta, os três sócios-fundadores do estúdio catalão RCR Arquitectes, são os grandes vencedores do prémio Pritzker 2017, anunciou, esta quarta-feira, a Hyatt Foundation. Continue reading Estúdio catalão RCR Arquitectes vence Pritzker 2017

“UNFINISHED” vence Leão de Ouro da Bienal de Arquitectura de Veneza

 

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O pavilhão de Espanha, intitulado “Unfinished” e dirigido pelos arquitectos Iñaqui Carnicero e Carlos Quintáns, recebeu este sábado o Leão de Ouro na XV Bienal de Arquitectura de Veneza, informou a organização.

O jurado internacional da Bienal considerou Espanha merecedora do galardão pela “melhor participação nacional” devido “à selecção cuidadosa dos arquitectos emergentes, cujo trabalho demonstra como o compromisso e a criatividade podem superar os limites materiais e de contexto”. Continue reading “UNFINISHED” vence Leão de Ouro da Bienal de Arquitectura de Veneza

RIBA AWARDS 2016

Durante 50 anos os prémios do  Royal Institute of British Architects “RIBA”, têm defendido e comemorado o melhor da arquitectura no Reino Unido e do mundo, não importa a forma, tamanho ou orçamento.

Heydar Aliyec
Heydar Aliyec Centre. Zaha Hadid Architects. 2012, Baku, Azerbaijão.

Projectos bem-sucedidos reflectem  as mudanças e inovações na arquitectura, mas na sua genesis exibem  um compromisso com a concepção e desenvolvimento de edifícios e espaços para o aperfeiçoamento e fortalecimento da qualidade de vida das pessoas. Continue reading RIBA AWARDS 2016

Podemos não querer cidades plastificadas?

O turismo é uma fonte de desenvolvimento fantástica para as cidades e para as mudanças que os novos tempos obrigam. As cidades modernizam-se, revitalizam-se, os monumentos restauram-se e reabilitam-se. Os centros históricos ganham novas formas e novas vidas.

Pormenor do Bairro Alto em Lisboa, um exemplo sobre a temática abordada

Surgem lojas mais apetrechadas, marcas internacionalmente conhecidas, retiram-se calçadas portuguesas para evitar quedas dos turistas que nos visitam, a população abandona as casas e nelas instalam-se hotéis e casas de restauração, as esplanadas amontoam-se em áreas de património e de interesse público. A vida nocturna cresce, o ruído aumenta, a população desespera e abandona o lugar.
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