Morreu Francisco Castro Rodrigues

Morreu Francisco Castro Rodrigues, que desenhou “o Lobito como cidade moderna”

O legado do arquiteto “é uma cidade moderna bem delineada” em Angola. Traduziu a Carta de Atenas e permaneceu em Angola depois da independência. Morreu aos 94 anos em Lisboa.

Francisco Castro Rodrigues, um dos nomes da arquitetura moderna portuguesa e que “construiu a imagem do Lobito como cidade moderna” em Angola, morreu no sábado (02-05-2015) à tarde, em Lisboa, aos 94 anos, na sequência de uma intervenção cirúrgica.919297

O trabalho de Castro Rodrigues, diz a crítica de arquitetura Ana Vaz Milheiro ao PÚBLICO, tem “um impacto muito forte porque se localiza fora de Luanda, levando até ao Lobito a arquitetura moderna”. E o Lobito é um pouco dele, porque “construiu a cidade não apenas nas zonas de crescimento, na consolidação do centro histórico, nos edifícios públicos e privados”. Ajudou a desenhar uma cidade moderna “com os elementos que estamos habituados a associar à arquitetura tropical, como os brise soleil”, que impedem o impacto direto do sol nos edifícios.

Nascido no bairro lisboeta da Graça em 1920, Francisco Castro Rodrigues é também reconhecido por ter traduzido para português com a mulher, a atriz Lurdes Castro Rodrigues, a versão integral da Carta de Atenas, o manifesto saído do IV Congresso Internacional de Arquitetura Moderna e redigido por Le Corbusier que ajuda a definir o conceito do “urbanismo moderno”. Depois de ter estudado arquitetura na Escola de Belas-Artes de Lisboa, colabora com o Gabinete de Urbanização Colonial, o organismo público criado em 1944 pelo ministro das Colónias Marcello Caetano para urbanizar os territórios ultramarinos portugueses. É nessa fase que participa na conceção do plano director e urbanístico do Lobito e de Nampula.

obra de Castro Rodrigues, fotografia Ana Vaz Milheiro
obra de Castro Rodrigues, fotografia Ana Vaz Milheiro

Em Angola trabalhou e viveu durante 34 anos, estreando-se em 1953 como arquiteto municipal ao serviço do Estado Português (foi director dos Serviços de Urbanização e Arquitetura na Câmara Municipal do Lobito) e mais tarde trabalhando para a República de Angola já depois da independência. Desenhou a Catedral do Sumbe (1966), a Aerogare do Lobito (1964) ou o bairro do Alto do Liro (1970-1973) de 7500 habitações. No Lobito deixou equipamentos de destaque como o Cine-Flamingo (1963), famoso pela sua cobertura de betão suspensa, o Liceu do Lobito (1966) ou o bloco de habitação da Universal (1961). Em Moderno tropical: Arquitetura em Angola e Moçambique, 1948-1975, de Ana Magalhães e Inês Gonçalves (ed. Tinta da China, 2009), a capa pertence precisamente a Castro Rodrigues e ao que resta do Cine-Esplanada Flamingo.

Flamingo, obra de Castro Rodrigues, fotografia Ana Vaz Milheiro
Flamingo, obra de Castro Rodrigues, fotografia Ana Vaz Milheiro

Como contextualiza o arquiteto José Manuel Fernandes em Arquitetura e Urbanismo na África Portuguesa (ed. Caleidoscópio, 2005), “por um lado, o seu trabalho longo e contínuo no Lobito (depois de 75 parcialmente em Luanda) entre 1953 e 1987; por outro, a sua participação, decisiva e simultânea, nos planos municipal, urbanístico, infraestrutural e arquitetónico tornaram Castro Rodrigues num verdadeiro ‘fazedor da cidade moderna’ em relação ao Lobito”.

Ou seja, depois da independência, o militante antifascista – integrou o Movimento de Unidade Democrática, foi membro do Partido Comunista Português (desvincula-se em 1949), esteve preso no Aljube em 1947 e já em Angola é delegado de Humberto Delgado às presidenciais de 1958 – colaborou na reconstrução do país e também na instituição do curso de Arquitetura em Angola. “Uma missão de vida”, diz Ana Vaz Milheiro a partir das conversas que teve com o arquiteto lisboeta, para quem a profissão era um meio para “resolver os problemas reais das populações”.

liceu, obra de Castro Rodrigues, fotografia Ana Vaz Milheiro
liceu, obra de Castro Rodrigues, fotografia Ana Vaz Milheiro

“Lá em Angola é que nunca [pus o chapéu colonial]”, escreveu Castro Rodrigues em Um Cesto de Cerejas – conversas, memórias, uma vida (ed. Casa da Achada, 2009). “As donas de casa, para se ‘distraírem’, mandavam à esquadra o ‘criado’ com um recado para lhe darem palmatoadas… Logo ali virei ‘angolano’.”

Autor de uma “obra vasta e notável”, como categorizou a arquiteta Cristina Salvador na sua proposta de Castro Rodrigues como membro honorário da Ordem dos Arquitetos (2005), este foi premiado em 2011 pela secção portuguesa da Associação Internacional de Críticos de Arte. Para o júri – do qual fazia parte Ana Vaz Milheiro – a sua obra é “de grande relevância cultural na cena portuguesa, ainda que pouco conhecido das gerações recentes, já que a maior parte da sua obra construída se localiza em Angola, no Lobito, cidade à qual imprimiu um forte carácter urbano a partir dos anos de 1950”.

castrorodriges1

Do extraordinário percurso de Castro Rodrigues em Angola, construtor de cidade e de arquiteturas notáveis no Lobito, podemos destacar:

* Bloco de habitação prédio do Sol (1952) “…de intensa modernidade” (J. M. Fernandes, 2005, p. 91);
* Jardim Infantil João de Deus (1955);
* Cine-Esplanada Flamingo no Lobito (1963) “com uma elegante pala em betão, tensionada por cabos” (J. M. Fernandes, 2005, p. 91);
* Mercado municipal do Lobito (1963) “de delicada escala e desenho” (J. M. Fernandes, 2005, p. 91)
* Aerogare do Lobito (1964) “um volume transparente com extensos planos de grelhagem para ventilação” (J. M. Fernandes, 2005, p. 91);
* Liceu do Lobito (1966);
* Auto silo da casa Americana (1970);
* Bairro municipal de autoconstrução do Alto do Liro 7 500 fogos (1970-1973) “inovador…percursor do que se fez em Portugal com o SAAL” (J. M. Fernandes, 2005, p. 91);
* Catedral de Sumbe ex-Novo Redondo (1972?)
* Liceu do Sumbe (1972-73);
* Paços do Concelho no Sumbe (?)
* Plano Director do Lobito aprovado em 1975 pelo governo da República de Angola .

Como tem sido destacado por J. M. Fernandes,
“Por um lado, o seu trabalho longo e contínuo no Lobito (depois de 75 parcialmente em Luanda) entre 1953 e 1987; por outro, a sua participação, decisiva e simultânea, nos planos municipal, urbanístico, infraestrutural e arquitetónicos – tornaram Castro Rodrigues num verdadeiro “fazedor da cidade moderna” em relação ao Lobito.”
(Fernandes, J. M. – Arquiteturas e Urbanismo na África Portuguesa. Lisboa: Caleidoscópio, 2005, p. 89)

O mesmo respeito que FCR mantinha pelas populações promovendo tanto quanto possível a auto-construção, o uso de materiais e técnicas locais, “aprendemos realmente, com as razões que o povo nos apresentou, a construir melhor”, e a participação, “a certa altura fazia-se o chamamento da população para discutir certos pontos do Plano Director, para falar”.
“A propósito das aldeias, comunais ou não” é o título de um trabalho que desenvolve para Agostinho Neto (198?) e um tema recorrente sobre o qual trabalha e que conclui com o exemplo dos processos experimentados no Alto do Liro.
Em 1979 integrou a Direção Nacional de Edificações de Angola e mais tarde, até 1984, o Gabinete Regional de Urbanização de Benguela.
Em 1982 concluiu o estudo “História do Lobito e da Catumbela”.

FCR fixou-se em Portugal em 1987 e voltou a Angola (em 1993) para a assembleia popular lhe entregar um diploma como trabalhador de mérito.”

Fonte: http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/morreu-o-arquitecto-francisco-castro-rodrigues-que-desenhou-o-lobito-como-cidade-moderna-1694419?frm=ult

Mais em:  http://www.buala.org/pt/da-fala/etiquetas/francisco-castro-rodrigues

 

Comentar artigo

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s